
Entrevista concedida por Cláudia Santa Rosa, coordenadora pedagógica do projeto “Casa de Saberes”, à jornalista Sandra Mara Costa, Assessora de Comunicação do Instituto C&A (SP) sobre experiência educacional diferenciada. a) O que é o "Casa de Saberes"? Você tem algum documento eletrônico sobre ele? No site www.casadesaberes.com constam informações atualizadas sobre o projeto e no blog http://casadesaberes.blogspot.com Posso dizer que o "Casa de Saberes" é o projeto político-pedagógico (PPP) desenvolvido pela Escola Estadual Hegésippo Reis, contando com a parceria do IDE, do Instituto C&A, especialmente, através das ações de fomento à leitura, do Instituto HSBC Solidariedade e Loja Maçônica Padre Miguelinho. A compreensão é de que a leitura é a principal ponte para a cidadania e para as aprendizagens em todas as áreas de conhecimento. Se as crianças tiverem acesso a um bom processo de alfabetização e letramento e sentirem prazer em ler, terão condição de sucesso em todas as avaliações, exames, provas, provinhas e provões. Essa experiência revela o poder das parcerias entre a sociedade civil organizada, o primeiro e o segundo setores. Pretende demonstrar que é possível a verticalização dos resultados de bom desempenho escolar das crianças, decorrentes do protagonismo e compromisso dos profissionais envolvidos. b) Quais são as bases do Projeto Casa de Saberes? o projeto absorve o referencial teórico-prático que trabalhamos em nossa tese de doutorado, mas o importante é que se constrói no coletivo, com a prática educativa e a reflexão sobre essa prática, que tem sido desenvolvida com a comunidade escolar da Hegésippo Reis, que deseja ser reconhecida como uma instituição que, verdadeiramente, cumpre a sua função social. Passamos 06 meses em Portugal, observando o cotidiano de uma escola pública inclusiva, portanto, comprometida com a cidadania. Trata-se da revolucionária Escola da Ponte, onde tivemos, ainda, a oportunidade de entrevistar profissionais e familiares das crianças daquela instituição. A Escola da Ponte, escola pública, situa-se entre as 10 melhores experiências inovadoras da Europa, conforme o "Guia de Experiências Inovadoras", do ano de 2006. Nos nossos estudos, pesquisamos as bases de sustentação de projetos educativos exitosos como o da Ponte, que já dura 30 anos. Sendo uma das fundadoras do IDE e funcionária da rede estadual de ensino do RN, desde 1990, sentimo-nos determinada a verificar os indicadores, em pelo menos 5 anos, de uma escola que trabalha comprometida, unicamante, com a qualidade dos resultados de aprendizagens das crianças. A Escola Estadual Hegésippo Reis até final de 2006 estava agonizando na suas condições físicas, de equipamentos e humanas e como a imensa maioria das escolas, sem a clareza da sua missão, sem visão de futuro, sem projeto. Em menos de 3 anos já aconteceu uma verdadeira revolução na pequena escola do bairro de Nova Descoberta, em todos os sentidos. Entretanto, a equipe tem cautela em avisar que ainda está distante das condições necessárias e que o seu projeto é apenas um bebê que acaba de nascer. Estamos obcecadas por este projeto da Escola e só acreditamos que os projetos se consolidem quando há pessoas obcecadas envolvidas com eles e que conseguem atrair outras pessoas e contagiar quem está ao seu lado. Nessa escola encontramos um terreno muito fértil. Porém, o nosso principal desafio tem sido construir uma equipe comprometida com a educação de qualidade social, porque há muita rotatividade de professores, pois quase 100% são estagiários, professores temporários. Tudo recomeça quando ocorre uma mudança na equipe. c) Em linhas gerais como funciona o projeto? Na Hegésippo Reis não se tem série, não se tem ano e nem turma. As crianças estão organizadas em grupos, por aproximação de necessidades de aprendizagens, umas ajudando às outras. Cada grupo com cerca de 20 crianças. Por turno elas passam por duas oficinas, cada uma com duração de duas horas. Todos os professores são professores de todas as crianças, porque são responsáveis por uma das oficinas e por elas passam todas as crianças. O professor tem que responder pelas aprendizagens das crianças numa determinada área de conhecimento, sem perder o olhar interdisciplinar. A Escola oferece Oficina de Projetos, Oficina de Linguagem, Oficina de Oficina de Números, Sala de Leitura, Oficina de Danças Populares, Oficina de Canto Coral, Oficina de Jornal Escolar, Oficina da Campanha Escola Nota 10 e Capoeira, estas seis, últimas, acontecem no contraturno. Uma vez por semana as crianças se reúnem por equipes de responsabilidades, pois colaboram com a gestão compartilhada da escola e prestam contas na Assembléia da Escola, que acontece semanalmente. A assembléia é coordenada por elas próprias, que discutem os seus problemas e tiram encaminhamentos, coletivamente. Todos os grupos da Escola se correspondem com turmas da Escola Municipal Zumbi dos Palmares, em João Pessoa/PB, entre outras especificidades do projeto. d) Por enquanto quais são os resultados? o projeto está começando, mas já são visíveis os seguintes resultados: é visível o processo de apaixonamento das crianças pela leitura, há mais aprendizagem, mais sentimento de pertencimento à escola, mas alegria das crianças e dos seus pais, mais satisfação da equipe. Trata-se de uma escola que constrói o seu DNA, uma identidade pedagógica. e) A escola é de ensino fundamental? sim, a Hegésippo Reis trabalha de 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Crianças de 6 a 11 anos. O INEP/MEC acabou divulgou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e a posição do Estado do RN é péssima. É assustador, mas aqui já se começa a falar em "analfabetismo infantil", porque cerca de 80% das crianças do RN não conseguem ler de maneira competente, na época própria. A promoção da leitura, no âmbito do “Casa de Saberes” assume um lugar central na política de reversão desse quadro. A Escola tem IDEB 4,0, o 8º melhor entre as escolas estaduais de 1º a 5º ano, localizadas em Natal e é o 10º melhor se consideradas, também, as da rede estadual. É um IDEB muito baixo, mas bastante significativo para uma escola com o histórico da Hegésippo Reis. f) Quantos alunos tem a Escola? são 120 crianças, que é a capacidade máxima instalada, já tudo muito apertado. A nossa compreensão é de que escola não se faz apenas com crianças, mesas, cadeiras, quadro e professora. Os espaços aos poucos estão ganhando ares de oficinas de trabalho. Estimamos que entre adultos e crianças o espaço de leitura beneficia cerca de 300 pessoas, porque há atividades que são ampliadas para toda comunidade, como por exemplo o "Sábado Literário", "Praça também é lugar de leitura", os eventos, o “Chá de Chocolate com Leitura, atividades com encontros programados. g) o que representou o dia 14 de maio de 2007 para a Comunidade? foi um marco, porque a escola inaugurou a sua Sala de Leitura, com um projeto referência. A partir dele começamos a fomentar proposições de políticas públicas. Estamos construindo tecnologia social. No evento do dia 14, o IDE assinou o Termo de Parceria com a Secretaria de Estado da Educação e da Cultura e com o Instituto C&A. A cerimônia do dia 14 foi coordenada pelos coordenadores da Assembléia da Escola, a aluna Ana Beatriz Leite dos Anjos e o aluno Rafael Igor Oliveira Melo, ambos com 09 anos, numa demonstração do que se pretende alcançar com os projetos ao se colocar as crianças como protagonistas de todo o processo. Muita coisa já foi possível acontecer em pouco tempo. Compreendemos que são Projetos como o "Casa de Saberes", que se constituem em resposta concreta do que é preciso ser feito, no sentido de reverter a posição do RN em resultados como o IDEB, prova Brasil, SAEB, ENEM. É preciso mobilizar a sociedade e os profissionais das escolas para empreenderem e juntos fazer o controle social. Não se faz educação de qualidade apenas com discursos. h) Quantos títulos tem o espaço de leitura da Escola? o acervo, no momento, tem cerca de 3.000 títulos entre livros de literatura e gibis. É resultado da campanha "Um livro, com prazer", implementada pelo IDE www.ideducacao.org.br, em parceria com o Instituto C&A www.institutocea.org.br e também é composto de cerca de 150 títulos que já existiam na escola. Tomamos para nós o desafio maior de empreender e viabilizar as condições de espaço e acervo, na Escola, para a realização de uma boa mediação de leitura. A Campanha já nos permitiu fazer o repasse de cerca de 3.000 títulos para espaços de leitura de outras instituições. i) E o espaço é aberto só para a escola ou também para a comunidade? neste primeiro momento o acervo estará disponível para as crianças da Escola e os seus familiares, os profissionais da Escola e os seus familiares e os profissionais da equipe do IDE que atuam no projeto. O espaço não tem o caráter de biblioteca e sim de espaço para a leitura, efetivamente voltado para a construção do vínculo leitor e texto. Há uma parte do acervo com títulos de literatura para o público adulto e a maior parte para o público infanto-juvenil, com livros e gibis. Essa foi a nossa opção. No espaço há também 4 computadores conectados à internet, aparelho de som e, eventualmente, um projetor data show, permitindo a diversificação de ferramentas para as práticas de mediação. Desde o início do projeto parte do acervo foi disponibilizado para empréstimos. j) De onde veio o recurso para implementar o espaço de leitura? o espaço de leitura é resultado de um arco de parcerias importantes. Quando chegamos à escola, em julho de 2006, encontramos uma sala que tinha sido construída em 2004 pela Maçonaria Padre Miguelinho, pois o prédio é de propriedade da Maçonaria, mas é cedido ao Estado, desde 1976, para servir ao funcionamento da Escola. A referida sala foi construída para funcionar uma biblioteca, mas alagou na primeira chuva, inviabilizando todas as pretensões. A comunidade passou a chamá-la de "elefante branco", porque ficou sem uso. Desenvolvemos algumas discussões coletivas e a comunidade decidiu lutar para que a Secretaria de Educação oferecesse as condições para que a sala funcionasse e também recuperasse as instalações físicas da escola, que estavam precárias. Depois de muitas negociações esse processo foi concretizado, quando muita gente já não acreditava que fosse possível. O IDE discutiu com o Instituto C&A a possibilidade de fortalecer o projeto político-pedagógico da escola, através do trabalho de promoção da leitura e o Instituo C&A foi sensível, abrindo-se uma linda possibilidade de transformação daquela realidade. Convocamos a sociedade, através da campanha "Um livro, com prazer", para colaborar com a montagem do acervo e a resposta foi e continuar a ser fantástica. Os meios de comunicação compraram a idéia e tivemos uma mídia muito positiva. As livrarias Potylivros e Siciliano, o Banco do Brasil (agência Prudente de Morais), o INSS e o centro comercial Lagoa Center montaram pontos de arrecadação com banner e caixa própria para as pessoas depositarem os livros e os gibis. Em março, um dos nossos shoppings center, o Cidade Jardim, desenvolveu uma ação de responsabilidade social e, sozinho, arrecadou mais de 1.000 títulos destinados à Campanha, tendo repetido a parceria nos dois últimos anos. O espaço de leitura foi equipado pela Secretaria de Educação, o Instituto C&A e o Instituto HSBC Solidariedade. A mediação de leitura, no espaço, com oficinas permanentes, foi assumida no primeiro ano com um investimento integral do Instituto C&A, no segundo ano compartilhado com a Secretaria de Educação e neste terceiro ano é assumido pela Secretaria. A formação das professoras da escola, de modo a atuarem para além do espaço, ações junto aos pais e publicações voltadas para as escolas da rede tem sido fortalecido por esse arco de parceiros. |